É possível evitar o diabetes mellitus?

O diabetes mellitus tipo 2 é considerado uma das grandes epidemias mundiais do século XXI e problema de saúde pública em todo o mundo.

Sua prevalência estimada hoje no Brasil de acordo com a pesquisa Vigitel 2011 é 9,4% em adultos de 35 a 64 anos. Esta prevalência vem aumentando devido ao envelhecimento da população, além do aumento de condições relacionadas ao estilo de vida urbano, como a obesidade e o sedentarismo.

 

A grande consequência do diabetes são as complicações crônicas que ele pode causar: prejuízo da visão, dos rins, dos nervos e aumento de doenças cardio-vasculares como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral. Estas complicações podem ter seu início antes do diagnóstico de diabetes.

 

Quando estamos diante de uma doença crônica, a pergunta mais impactante é: o que poderia modificar a evolução desta doença?

 

No diabetes foi feita uma descoberta da qual muitas pessoas não têm conhecimento. Existe um momento em que a chance de ocorrerem complicações  pode ser significativamente diminuída: no início da doença. E esta afirmação não é baseada em conclusões óbvias de fisiopatologia, mas sim, foi demonstrada em extensos estudos científicos realizados nas últimas décadas.

 

Funciona mais ou menos assim: logo que se faz o diagnóstico de diabetes é necessário que seja implementado tratamento intensivo, ou seja, a terapia suficiente para manter os níveis de glicemia de jejum, glicemia pós prandial ( 2 horas após a refeição) e hemoglobina glicada nos alvos, de forma continuada. Estudo mostram que quando esta abordagem é praticada, após um período de 10 a 15 anos, mesmo que o controle intensivo da glicemia seja perdido, o paciente mantém um baixo risco de complicações crônicas, incluindo infarto do miocárdio e morte por todas as causas. Os estudos que demonstraram estes achados são o UKPDS (UK Prospective Diabetes Study) e DCCT (Diabetes Control and Complications Trial Research Group), juntamente com seus achados pós finalização.

 

No caso contrário, quando o tratamento intensivo não é ministrado desde o começo, ou o diagnóstico demora a ser realizado, este paciente pode ter um importante descontrole glicêmico, já apresentando início de lesões em outros órgãos. Quanto mais tempo este quadro se mantém (descontrole grave ou mesmo controle não ideal), maior a chance de haver uma reversão na situação. Neste cenário, pode se tornar maléfica, ao invés de benéfica, a introdução de medidas para rígido controle glicêmico, como mostraram os estudos ACCORD  (Action to control cardiovascular risk in Diabetes), ADVANCE (Action in Diabetes and Vascular Disease) e VADT (Veterans Affair Diabetes Trial). Estes estudos demonstraram aumento da mortalidade nestas circunstâncias.

 

Estes achados nos mostram que, é de vital importância para a nossa saúde presente e futura, o diagnóstico precoce do diabetes e seu tratamento rigoroso.

 

Para isso devem receber especial importância três grupos de pacientes:

  1. Aqueles com diagnóstico recente de diabetes;
  2. Aqueles que apresentam risco aumentado para diabetes ( também chamados pré diabéticos)
  3. Aqueles que apresentam fatores de risco para diabetes

 

Como é feito o diagnóstico de diabetes mellitus?

Quando a glicemia de jejum encontra-se maior ou igual a 126 mg/dl, a curva glicêmica apresenta valores superiores a 200 mg/dl aos 120` ou quando a hemoglobina glicada está maior ou igual a 6,5% ( cada um destes critérios precisa ser repetido). Ou ainda quando o paciente tem sintomas típicos de descontrole da doença (sede, aumento do volume urinário, aumento do apetite e emagrecimento inexplicado) e é realizada uma glicemia ao acaso e esta mostra um valor superior a 200 mg /dl.

 

O que é risco aumentado para diabetes?

E a situação em que os indicadores diagnósticos já estão fora da faixa do normal, mas ainda não atingiram os níveis para diagnóstico de diabetes. Ou seja, uma glicemia de jejum de 100 a 125 mg/dl, valores de 140 a 199 aos 120` da curva glicêmica ou hemoglobina glicada entre 5,7 e 6,4%.

 

Devem ser testadas para diabetes mellitus os pacientes nas seguintes situações:

  • Pacientes com sobrepeso ou obesidade ( IMC >25 kg /m2) que tenham:
  1. Parentes de 1º grau com diabetes
  2. Raça ou etnia de alto risco (afro-americanos, latinos, americanos nativos, asiáticos e descendentes)
  3. História de doença cardio-vascular
  4. Hipertensão arterial ( Pressão arterial > 140/90 mm Hg ou uso de anti-hipertensivos)
  5. HDL colesterol < 35 mg /dL ou triglicérides > 250 mg /dL
  6. Mulheres com Síndrome dos Ovários Policísticos
  7. Sedentarismo
  8. Outra condição clínica associada com resistência à insulina como por exemplo, acantose nigricans ( manchas escuras que podem ocorrer na região do pescoço, axilas e abaixo das mamas)
  • Pacientes com pré diabetes
  • Mulheres que apresentaram diabetes gestacional
  • Paciente acima de 45 anos ( em caso de resultados normais, os testes devem ser repetidos a cada 3 anos).

 

E como então poderíamos evitar o diabetes?

Um estudo chamado DPP (Diabetes Prevention Program) avaliou um grupo de pessoas com pré diabetes, e comparou dieta e exercício físicos ‘normais’ com intensivos. O estudo tinha como objetivo redução do peso corporal, redução de gordura saturada da dieta e aumento da atividade física e consumo de fibras. Ao final de 3 anos, o grupo de modificações de estilo de vida ‘normal’ apresentou uma perda de 0,9 kg e o grupo intensivo apresentou perda de 3,5 kg. O grupo de intervenção intensiva teve uma diminuição de 58% no risco de diabetes.

 

Como conclusão, apontamos algumas medidas que podem realmente mudar o curso do diabetes ( evitar em alguns casos e postegar em outros):

– diagnóstico precoce através de vigilância ativa em pacientes com fatores de risco para diabetes

– manutenção da dieta saudável

– prática de atividades físicas

– manutenção de peso saudável ( perda 4- 5 kg já fazem bastante diferença)

– tratamento precoce em caso de diagnóstico de diabetes, e em algumas ocasiões já também no pré diabetes, perseguindo metas enfaticamente

– Tratamento de outras condições como aumento de colesterol, hipertensão arterial

 

A consciência da doença e dos riscos relacionados a ela, juntamente com a implementação de medidas simples podem provocar mudanças fundamentais no curso de uma doença, que, se tratada menos que adequadamente pode causar graves transtornos à saúde.

Comentários encerrados.